Equilíbrio entre ser humano e natureza

Foto: Aires Mariga/Epagri

O agricultor alemão Clemens von Schwanenflügel fala sobre a agricultura biodinâmica e suas implicações culturais, políticas, econômicas e ecológicas

O movimento biodinâmico nasceu na Europa em 1924 com o objetivo de desenvolver uma agricultura baseada em medidas novas nos campos cultural, político, econômico e ecológico. Está presente em mais de 50 países e prega o não uso de adubos nitrogenados minerais, pesticidas sintéticos, herbicidas, hormônios de crescimento etc. Para fertilizar o solo são utilizados preparados biodinâmicos. A ração para os animais é produzida na propriedade e a quantidade de bichos mantidos está relacionada à capacidade natural da área ocupada. O agricultor biodinâmico faz o cultivo e a seleção das suas próprias sementes, como também a adaptação e a seleção de raças de animais. No mundo inteiro os produtos biodinâmicos são comercializados sob a marca Deméter.

Clemens von Schwanenflügel é um agricultor do norte da Alemanha, considerado uma das lideranças mundiais no tema. Administra, em conjunto com outras cinco pessoas, uma propriedade de 150ha onde pratica horticultura, cria animais e mantém uma padaria, um laticínio e uma loja. Recebe também grupos de estudantes, do jardim de infância ao ensino superior. Ele esteve em Florianópolis para um evento e concedeu entrevista à Agropecuária Catarinense.

Agropecuária Catarinense – Qual a diferença entre uma propriedade rural convencional e uma propriedade rural biodinâmica?

Clemens von Schwanenflügel – Numa propriedade biodinâmica, deve-se trabalhar com animais, ter uma grande variedade de plantas, não se eliminar as pragas, ter uma grande diversidade biológica e fazer a semeadura intercalada. Então, são basicamente características assim que diferenciam uma propriedade biodinâmica. Os métodos da biodiversidade cultural têm como objetivo criar um equilíbrio que possa gerar ciclos ou movimentos que aumentem a imunidade ecológica do lugar.

 

AC – Qual a orientação para um agricultor que adota a agricultura convencional e deseja transformá-la numa propriedade biodinâmica? Onde ele busca essas informações, de que forma ele procede?

CS – A rigor, hoje todos os agricultores, de alguma maneira, sabem da importância de manter ou recriar esse equilíbrio entre a natureza e a cultura. Então, cada um sabe muito bem onde buscar (esse conhecimento). Assim como não existe um organismo biodinâmico em si – e nós olhamos a propriedade como um organismo –, cada agricultor vai ter que criar novamente esse organismo em sua propriedade. Pelo que eu tenho visto, acho que aqui no Brasil existem muito boas possibilidades. Há uma série de propriedades que possuem entre 3ha e 20ha e que podem ser facilmente transformadas em uma propriedade biodinâmica, pelo menos existem todas as condições para isso. Por outro lado, existem enormes áreas agrícolas que obviamente serão difíceis de ser transformadas num organismo biodinâmico, onde já há um avanço da monocultura de forma expressiva, a erosão já causou grandes danos ao solo e a natureza foi deixada de lado. Nessas áreas certamente são necessários muitos investimentos e muito tempo para você recuperar e transformar isso numa agricultura biodinâmica.

 

AC – A agricultura biodinâmica exige mais mão de obra, quando comparada à agricultura convencional?

CS – Sim, o que é bom, senão teríamos muitos desempregados no mundo. É preferível facilitar o acesso de pessoas para cuidar da terra do que ocupar as pessoas com atividades administrativas ou produzindo coisas supérfluas.

 

AC – Em geral, os custos de manutenção de uma propriedade biodinâmica se equivalem aos custos de uma convencional?

CS – Num mundo ruim é muito difícil de fazer coisas boas com pouco dinheiro. Então, a agricultura convencional obviamente é mais barata, uma vez que os custos que são gerados nos envenenando e acabando com a natureza são custos que oneram outras áreas, e não a agricultura propriamente dita. Do ponto de vista biológico, a agricultura biodinâmica é muito mais barata do que a convencional.

 

AC – Quantas fazendas biodinâmicas existem na Alemanha?

CS – Na Alemanha são aproximadamente 500 propriedades biodinâmicas, mas isso interessa pouco. O que interessa é saber qual a dianteira que a fazenda biodinâmica tem em relação à convencional. Quanto tempo nós estamos à frente do convencional, do orgânico ou do desenvolvimento cultural da sociedade.

 

AC – Como o mercado está preparado para absorver a produção da agricultura biodinâmica?

CS – A questão é outra. A questão é saber quanto tempo vai levar ainda até que as pessoas entendam a importância do que está acontecendo na agricultura em termos de destruição de natureza e de envenenamentos, e se elas estão prontas para mudar seus hábitos alimentares. Quando isso acontecer, não haverá produção que chegue e naturalmente muitas fazendas vão querer se transformar em biodinâmicas. A partir do momento em que, na Alemanha, a agricultura biodinâmica recebeu subvenções governamentais, a situação piorou, porque nos transformamos de um mercado de demanda num mercado de superoferta. Embora hoje haja uma oferta maior, o que sobra para o agricultor é menos do que antes.

 

AC – O agricultor biodinâmico deve produzir suas próprias sementes e mudas. Como atender essa demanda no Brasil, principalmente para aqueles que estão iniciando no modelo?

CS – A lei da produção orgânica no Brasil prevê o uso de sementes orgânicas e, como se sabe, até 2016, essa lei tem que entrar em vigor. Se isso acontecer, não tenho dúvida de que todos os produtores de sementes convencionais já estarão preparados, só esperando o momento em que vão dispor de sementes orgânicas em quantidade suficiente para abastecer o mercado.

 

AC – De que forma uma empresa como a Epagri pode apoiar o modelo de agricultura biodinâmica?

CS – Na minha opinião, o que é importante que se faça – e a Epagri pode agir nesse sentido – é a conscientização, tanto do agricultor como do consumidor, para que ambos tenham uma consciência maior da importância de uma agricultura orgânica ou biodinâmica, do quanto uma cultura isenta de venenos representa tanto para a natureza como para o ser humano. Então, a Epagri pode agir mais no sentido de conscientizar, educar, levar essa informação, fazer isso se reverter. Porque o agricultor vai acompanhar (a mudança), pois o interesse é realmente abastecer o mercado. Quanto a apoiar a agricultura biodinâmica em si, não vejo muito o que pode ser feito, porque, desde que se consiga criar uma consciência em relação ao equilíbrio da natureza, automaticamente a gente vai caminhar também na direção da biodinâmica, que tem justamente como objetivo maior encontrar o equilíbrio entre ser humano, natureza, animais e plantas. Sei que dentro da Epagri existe um grupo de extensionistas e pesquisadores que estão trabalhando uma forma de levar essa visão de mundo diferente, de equilíbrio, para o campo. Eu acho importante que haja uma luta política e nós vimos aqui e em outras redes que existe essa vontade de mudar a legislação no tocante à propriedade particular de solo e dos bens comuns. Há o ponto de vista de que isso deveria ser algo acessível a todos. Meu entendimento é que todos os brasileiros deveriam ter acesso aos bens que são comuns. Eu acredito que vale a pena insistir numa luta para mudar a legislação atual. Não importa se é orgânico, alternativo, familiar ou biodinâmico, pois no final o objetivo maior – a necessidade fundamental – é preservar a natureza e restabelecer o equilíbrio.

Por  Gisele Dias – giseledias@epagri.sc.gov.br

(Publicado em Vol. 28, nº2, ago./dez. 2015)