Já podemos observar os impactos das mudanças climáticas na cultura da maçã em Santa Catarina?

A maçã é uma fruta de clima temperado de grande importância comercial, tanto no contexto nacional como no internacional, sendo a terceira fruta mais produzida no mundo, com mais de 80 milhões de toneladas em 2013. Nesse mesmo ano, de acordo com os levantamentos da Epagri/Cepa, o Brasil foi o 12o produtor mundial de maçã e o 13o em produtividade média. De uma forma geral, a produção nacional de maçã é concentrada nos estados do Sul. A participação do estado de Santa Catarina e do Rio Grande do Sul na área plantada e na produção total brasileira foi de 95% e de 96% na safra 2014/2015, respectivamente. Em Santa Catarina a maçã é a fruta com maior área plantada e produção. Além disso, a maçã tem um destaque na economia do Estado, ocupando a 10a posição no valor bruto da produção. Nos três estados da Região Sul do País são gerados mais de 52 mil empregos diretos e 85 mil indiretos, colocando a cultura da maçã como grande suporte econômico nos estados sulinos. Estima-se que são gerados quase 140 mil empregos em toda a cadeia produtiva da maçã no Brasil. As mudanças climáticas poderiam causar alteração desse cenário?

Figura 1. Área colhida nas três principais microrregiões de produção da cultura da maçã no período de 1990 a 2014 para o estado de Santa Catarina

A safra brasileira 2013/14 apresentou variação negativa de 3% na área de colheita em relação à de 2012/13, com diminuição da área nas regiões gaúcha (4,0%) e catarinense (1,3%). Em Santa Catarina as regiões produtoras apresentam comportamento diferente em relação à variação da área plantada. A microrregião dos Campos de Lages, com temperaturas mais baixas, apresenta uma tendência de aumento da área plantada. Em contraste, a microrregião de Joaçaba e de Curitibanos, com temperaturas mais altas, apresentam tendência de decréscimo na área de plantio nos últimos anos (Figura 1). A análise histórica da distribuição da área plantada com a cultura da maçã em função da temperatura mínima (Figura 2) mostra uma tendência de crescimento da área plantada em municípios com temperaturas mais baixas e de decréscimo da área plantada em municípios com temperaturas mais altas. Outras regiões do mundo apresentam também um deslocamento de área com a cultura da maçã, como o que vem ocorrendo no estado de Himachal Pradexe, na Índia, para regiões com maior altitude. Já em Kazuno, no norte do Japão, está ocorrendo uma troca de área de produção da maçã para a cultura do pêssego, que é menos exigente em horas de frio.

Estudos globais recentes têm apontado mudanças consistentes, principalmente nos extremos de temperatura do ar e da precipitação pluviométrica em diversas partes do globo. Em Santa Catarina, estudos feitos pela Epagri também têm apontado mudanças nas temperaturas e na precipitação. De uma forma geral, esses trabalhos indicam aumento da temperatura do ar, especialmente nas temperaturas mínimas, e evidenciam um aumento na intensidade dos eventos de precipitação pluvial. Embora os totais de precipitação estejam aumentando, o número de dias consecutivos sem chuva tem aumentado também. Eventos de chuva com totais acima de 100mm têm sido mais frequentes.

Figura 2. Área colhida com a cultura da maçã por município em Santa Catarina nos anos de 1994, 2004 e 2014 em função da temperatura mínima do ar do município

O impacto das mudanças climáticas na cultura da maçã tem sido foco de pesquisa desenvolvida pela Epagri em Santa Catarina com o objetivo de analisar a distribuição das áreas potenciais de cultivo para essa cultura. Os resultados têm mostrado que os impactos das mudanças climáticas projetadas para o futuro apontam uma redução significativa do número de municípios aptos para o cultivo quando comparados com o atual zoneamento climático, bem como um deslocamento da área de produção, de locais com altitude mais baixa para mais alta, ou de regiões mais quentes para regiões mais frias. Resultados semelhantes foram encontrados no Nepal e no Japão.

Os resultados de pesquisa dos impactos das mudanças climáticas na cultura da maçã com cenários futuros mostraram que há uma tendência de deslocamento da área produtora e uma diminuição na área plantada. Essa mesma tendência pode ser observada nas estatísticas agrícolas (Figura 1 e Figura 2). Segundo o presidente da Associação Brasileira de Produtores de Maçã (ABPM), o risco climático é um aspecto fundamental cuja importância tem se tornado mais evidente a cada ano para o segmento. Consequentemente, estudar o declínio da área plantada e outros impactos das mudanças climáticas contribuirá para determinar estratégias de mitigação e adaptação para a cultura da maçã.

Angelo Mendes Massignam[1] e Cristina Pandolfo[2]

[1] Engenheiro-agrônomo, Dr., Epagri/Ciram, Rodovia Admar Gonzaga, 1347, Itacorubi, 88034-901 Florianópolis, SC, fone: (48) 3665-5134, e-mail: massigna@epagri.sc.gov.br.

[2] Engenheira-agrônoma, Dra., Epagri/Ciram, Rodovia Admar Gonzaga, 1347, Itacorubi, 88034-901 Florianópolis, SC, fone: (48) 3665-5134, e-mail: cristina@epagri.sc.gov.br.

(Publicado em Vol. 29, nº3, set./dez. 2016)

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