Arroz SCS122 Miura traz alta produtividade no DNA

Foto: Aires Mariga/Epagri

 Trigésimo cultivar de arroz irrigado lançado pela Epagri coroa o resultado de 41 anos de trabalho em melhoramento genético do grão

Do início do trabalho para desenvolver um cultivar de arroz até as sementes do lançamento chegarem às mãos dos agricultores, lá se vão cerca de 12 a 14 anos de esforço ininterrupto. Trabalhando com um olho no futuro, os pesquisadores precisam ser não só perseverantes em cada etapa do melhoramento genético, mas também um pouco visionários para buscar o que os produtores vão demandar dali a pelo menos uma década.

Foi com esse espírito que as equipes que já passaram pela Estação Experimental de Itajaí (Epagri/EEI) trabalharam ao longo das últimas quatro décadas. Nesse período, nada menos do que 30 cultivares de arroz irrigado saíram de lá para mostrar seu potencial em lavouras dentro e fora do Brasil. O trigésimo da lista, lançado neste ano, é o SCS122 Miura.

Os grãos do arroz Miura são longo-finos e agradam o mercado brasileiro (Foto: Epagri/EEI)

O grande destaque da nova variedade de arroz irrigado da Epagri é o potencial produtivo – afinal, colher mais na mesma área é algo que sempre vai interessar ao agricultor. O arroz Miura alcança 9,46t/ha, enquanto a média estadual está em torno das 7t/ha. Ele também resiste ao acamamento por ventos, problema que impossibilita a colheita e causa perdas na cultura. A planta tem bom perfilhamento, ou seja, emite mais panículas e grãos de arroz, e ainda é resistente à brusone, principal doença do arroz irrigado. Os grãos são longo-finos e agradam o mercado e o consumidor brasileiro.

Cruzamentos, seleção e testes

O SCS122 Miura é resultado do cruzamento realizado em 2003 entre a linhagem PR 122 (Iapar) e o cultivar SCSBRS Tio Taka (Epagri). No ano seguinte, o híbrido originário desse cruzamento foi retrocruzado com a linhagem multiespigueta da Epagri SC 354. Após anos de seleção, na safra 2010/11 a linhagem resultante foi considerada promissora e denominada SC 681.

A partir da safra 2011/12, a SC 681 foi avaliada durante três anos agrícolas em experimentos oficiais registrados no Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa), em locais representativos de cultivo do arroz irrigado em Santa Catarina. Os resultados das avaliações, no sistema pré-germinado, atenderam os requisitos para que a linhagem fosse lançada como um novo cultivar.

A linhagem SC 681 também foi submetida à avaliação de desempenho industrial e sensorial, além de passar por análises químicas, em quatro instituições: Sindicato das Indústrias do Arroz (Sindarroz-SC), Cooperjuriti, Embrapa Arroz e Feijão e Universidade Federal de Pelotas (UFPel). Todas as avaliações consideraram a nova variedade adequada aos processos de beneficiamento para arroz parboilizado, sistema utilizado pela maior parte das indústrias de arroz de Santa Catarina.

As sementes do cultivar SCS122 Miura são multiplicadas em lavouras certificadas (Foto: Epagri/EEI)

Depois de passar em todos os testes e revelar características que agradam o produtor, a indústria e o consumidor, em 2016 a nova linhagem foi encaminhada para registro, proteção e lançamento, sob o nome de SCS122 Miura.

O nome do cultivar é uma homenagem ao engenheiro-agrônomo Lucas Miura, pesquisador da Epagri e fitopatologista que atuou durante muitos anos na Estação Experimental de Itajaí. “Considero uma homenagem à minha família, aos meus pais que vieram do Japão e se estabeleceram no Brasil na década de 1930”, disse.

Ideal para SC

O arroz SCS122 Miura é recomendado para cultivo em todas as regiões produtoras de arroz irrigado de Santa Catarina – Norte e Sul do Estado e Vale do Itajaí. Mas ele também pode ser plantado em outros estados do Brasil, desde que se realizem os experimentos oficiais de Valor de Cultivo e Uso (VCU), o que gera a concessão da extensão do registro para cultivo.

O engenheiro-agrônomo José Alberto Noldin, gerente da Epagri/EEI, ressalta que as parcerias foram fundamentais para o desenvolvimento desse trabalho. “Merece destaque o apoio que a Epagri tem de instituições como a Associação Catarinense dos Produtores de Sementes de Arroz Irrigado (Acapsa), o Sindicato da Indústria do Arroz de Santa Catarina (Sindarroz-SC), a Embrapa, o CNPq, a Fapesc, a Finep e o Governo Federal”, enumera.

Em 41 anos de pesquisa na área, a Epagri ajudou a dobrar a produtividade catarinense (Foto: Aires Mariga/Epagri)

Grão que se multiplica

O Brasil ocupa a nona posição no ranking mundial de produtores de arroz, com 10,49 milhões de toneladas contabilizadas em 2015/16. Santa Catarina é o segundo produtor nacional, responsável por 10% do arroz colhido no País, atrás do Rio Grande do Sul, que responde por cerca de 70%.

Os catarinenses plantam uma média de 148 mil hectares e colhem cerca de 1 milhão de toneladas por ano. A produtividade está entre as maiores do Brasil: “a média para a safra 2016/17 deve ficar acima de 7,5t/ha”, assinala o pesquisador José Alberto Noldin.

Essa cadeia produtiva envolve 85 municípios e mais de 11 mil propriedades rurais – a grande maioria conduzida com mão de obra familiar. São, ainda, cerca de 60 indústrias de beneficiamento, 20 produtores de sementes e cinco cooperativas, respondendo por mais de 50 mil empregos diretos e indiretos. A maior área de produção está na faixa litorânea do Sul Catarinense (61%).

Esses números já estão bem distantes dos que se alcançavam no início das pesquisas da Epagri. Em 1977, os arrozais de Santa Catarina abrangiam apenas 72 mil hectares, a produção era de 209 mil toneladas e a produtividade média girava em torno de 2,9t/ha.

Nos 40 anos que nos separam das colheitas daquele tempo, muita coisa mudou e o material genético desenvolvido pela Epagri é um dos protagonistas. Plantas mais produtivas, resistentes a doenças e com boas características agronômicas ajudaram a mais que dobrar o rendimento dos agricultores. Grãos de qualidade, que agradam os consumidores, e adequados ao sistema de parboilização, garantem o acesso dos produtos ao mercado nacional.

Cultivar SCS121 CL, lançado há dois anos, é o mais plantado em Santa Catarina (Foto: Epagri/EEI)

Sucesso nos arrozais

Um grande exemplo do impacto desse trabalho é o sistema de produção Clearfield, desenvolvido em parceria com a Basf. Ele é o único que proporciona o controle seletivo do arroz-daninho em lavoura comercial de arroz, reduzindo o uso de herbicidas. A Epagri lançou três cultivares para esse sistema. Na safra 2016/2017, estima-se que o sistema Clearfield tenha sido adotado em mais de 80% da área de arroz no Estado. Desse total, pelo menos 70% da área foi plantada com o cultivar SCS121 CL, lançado há apenas dois anos. “Entre os 22 cultivares da Epagri desenvolvidos para Santa Catarina em 41 anos de pesquisa com arroz, nunca uma variedade teve adoção tão rápida, tampouco ocupou tão elevado percentual de área cultivada”, destaca José Alberto Noldin.

Todo esse avanço não deixou de lado a preocupação com os recursos naturais. O simples fato de produzir mais na mesma área, com custos menores, já resulta em melhoria na sustentabilidade ambiental da atividade. “Cultivares mais resistentes a doenças significam menor uso de agrotóxicos, especialmente de fungicidas”, acrescenta o pesquisador.

A Epagri também desenvolveu cultivares de tipos especiais de arroz, como o arroz-vermelho (Rubi) e o arroz-preto (Ônix), recomendados para o sistema orgânico. Eles já são plantados no Sul do Estado e, por serem diferenciados, garantem maior valor de mercado para o agricultor.

Tipos especiais de arroz, como o vermelho (Rubi) e o preto (Ônix), também são alvo das pesquisas (Foto: Aires Mariga/Epagri)

Germinando pelo Brasil

O sucesso desse trabalho extrapola as fronteiras catarinenses. A disponibilização de sementes de cultivares da Epagri adaptadas ao sistema pré-germinado tem possibilitado o uso desse método em praticamente todos os estados brasileiros que produzem o grão. Hoje, cerca de 40% das sementes produzidas em Santa Catarina a partir de cultivares da Epagri são exportadas para outros estados. Nos arrozais gaúchos, elas estão presentes em 10% dos mais de 1 milhão de hectares plantados.

A lista de cultivares de arroz com DNA da Epagri continuará a crescer. “Melhoramento genético é um processo contínuo”, ressalta Noldin. O trabalho segue com o objetivo de desenvolver materiais de ciclo vegetativo médio, qualidade de grãos adequada à parboilização e ao beneficiamento direto e com boa resistência às principais doenças da cultura. Outra meta é aumentar o portfólio de tipos especiais de arroz. Com material de qualidade e produtivo, custos menores e redução do impacto ambiental, os rizicultores têm competitividade para ganhar mercado e crescer ainda mais na atividade. Agora é a vez de testar o potencial do SCS122 Miura.

 

COMO CONSEGUIR SEMENTES

As sementes certificadas do arroz SCS122 Miura podem ser adquiridas com os produtores de sementes associados à Acapsa e credenciados pelo Mapa. A lista desses produtores está disponível no site www.acapsa.com.br ou nos escritórios da Epagri.

 

Cinthia Andruchak Freitas – cinthiafreitas@epagri.sc.gov.br

(Publicado em Vol. 30, nº2, mai./ago. 2017)

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