Epagri desenvolve técnica inédita no Brasil para erradicar vírus em macieira

Brotação de macieira após a técnica de crioterapia (Fotos: Jean Carlos Bettoni/Udesc)

A Epagri está participando de uma pesquisa que aplica uma técnica inédita no Brasil para erradicação de vírus em cultivares de macieira. Trata-se da crioterapia, que consiste no uso de nitrogênio líquido para eliminar células e tecidos infectados de plantas cultivadas em laboratório, criando materiais isentos de vírus. Nessa técnica, os meristemas (espécies de células-tronco capazes de formar qualquer parte da planta) são mergulhados no nitrogênio líquido, chegando a -196°C. O trabalho, que vem apresentando resultados animadores, é desenvolvido pelas Estações Experimentais da Epagri em Lages e Caçador em parceria com o Centro de Ciências Agroveterinárias da Universidade do Estado de Santa Catarina (CAV/Udesc).

Os vírus podem diminuir o crescimento, a produtividade, a qualidade de frutos e também a vida útil dos pomares. Esse problema está bastante disseminado nos cultivos de maçã do Sul do Brasil e a técnica empregada pelos pesquisadores é uma saída para a produção de mudas de alta qualidade fitossanitária. “Além disso, poderá substituir a termoterapia, técnica convencional usada na limpeza de vírus em plantas, que tem algumas desvantagens em relação à crioterapia – mais cara, mais demorada e de eficiência relativamente menor”, explica o doutorando Jean Carlos Bettoni, que está desenvolvendo uma tese sobre o tema no curso de pós-graduação em Produção Vegetal do CAV/Udesc e é o principal idealizador da aplicação dessa técnica em macieiras.

A Epagri já tem experiência positiva com a crioterapia. Ela vem sendo usada na limpeza de vírus no alho, com aumentos de produtividade que variam entre 20% e 30%. É a primeira vez que a técnica está sendo usada para macieira no Brasil.

Plantas já formadas, prontas para serem avaliadas quanto à presença de vírus

No Laboratório de Biotecnologia da Estação Experimental da Epagri em Lages, Jean e os pesquisadores da Epagri Murilo Dalla Costa e João Frederico Mangrich dos Passos alcançaram resultados preliminares bastante promissores. No porta-enxerto de macieira Marubakaido, a diagnose pelo uso de técnicas de biologia molecular – feita em parceria com a Embrapa Uva e Vinho – para os vírus Apple Stem Pitting Virus (ASPV), Apple Stem Grooving Virus (ASGV) e Apple Chlorotic Leaf Spot Virus (ACLSV) indicou que 90% das plantas que passaram pela crioterapia estavam limpas.

Multiplicação dos resultados

Essas mudas de macieira foram entregues aos pesquisadores Maraisa Crestani Hawerroth e Marcus Vinicius Kvitschal, da Estação Experimental da Epagri Caçador. Lá, as plantas serão multiplicadas, avaliadas e, mais tarde, disponibilizadas ao setor produtivo. O cultivar SCS417 Monalisa, lançado pela Epagri em 2009, também passou pela crioterapia e será analisado em breve quanto à presença desses vírus.

“Há um longo trabalho pela frente; a crioterapia será aplicada em mais sete variedades de macieira de interesse para Santa Catarina”, revela o pesquisador Murilo Dalla Costa. Ele explica que esse trabalho é de suma importância para os programas de melhoramento genético de espécies frutíferas de propagação vegetativa que a Epagri desenvolve, uma vez que a condição sanitária das mudas é fator primordial no sucesso desses cultivos. A disseminação dessa técnica de limpeza de vírus poderá entregar aos fruticultores mudas de novos cultivares melhorados, também com boa condição sanitária.

(Publicado em Vol. 30, nº2, mai./ago. 2017)