Sabor e identidade cultural na cuia

Foto: Aires Mariga/Epagri

Epagri se uniu a outras instituições para buscar uma Indicação Geográfica (IG) para a erva-mate do Planalto Norte Catarinense, que se diferencia pelo seu modo de produção e pela relação histórica que mantém com os habitantes da região

Em boa parte do Sul do Brasil aquele papo tranquilo vem acompanhado por um bom chimarrão. Não importa se está frio ou calor, se se está no campo ou na praia, a cuia recheada com a erva verde e regada com água quente muitas vezes faz parte da roda de conversa. Nem é preciso estar em grupo, um momento a só também pode ser aquecido pela companhia do chimarrão.

Não é de hoje que a erva-mate faz companhia aos habitantes das localidades mais ao Sul das Américas. Os índios que habitavam a região, ainda antes da chegada dos colonizadores europeus, já usavam a erva. Nos tempos atuais, consumi-la tornou-se um costume arraigado em parte do Brasil, Uruguai, Argentina e Paraguai. A erva também passou a ser utilizada na confecção de diversos produtos, como chás e outras bebidas, gêneros alimentícios, produtos de higiene, cosméticos e medicamentos.

A planta pode ser encontrada em toda a região sul da América do Sul, mas a produzida no Planalto Norte catarinense associada com a floresta é diferenciada, com características únicas. Esses diferenciais levaram a Associação dos Produtores de Erva-Mate do Planalto Norte Catarinense (Aspromate) a desencadear o processo para obtenção de um Indicação Geográfica (IG). A Epagri, o Ministério da Agricultura Pecuária e Abastecimento (Mapa) e outras instituições entraram com os profissionais necessários para ajudar a associação e cumprir com sucesso essa empreitada.

Uma Indicação Geográfica é um selo, concedido pelo Instituto Nacional de Propriedade Intelectual (INPI) após avaliação de um dossiê preparado pelos solicitantes. O certificado é uma forma de valorização do produto de uma região ou território. A champanhe é um exemplo clássico de IG, pois só podem usar essa marca os vinhos espumantes produzidos em determinada região da França. Para conquistar uma IG, o produto deve ser diferenciado, mantendo relações históricas e culturais com a população local.

Erva-mate do Planalto Norte cresce à sombra de árvores nativas, como a araucária (Foto: Denilson Dortzbach/Epagri)

E a erva-mate do Planalto Norte catarinense atende a todas essas exigências. Trata-se de uma planta nativa da região, produzida de modo peculiar, em meio às araucárias, imbuias e outras árvores nativas. Por estar à sombra destas plantas maiores, a erva do Planalto Norte tem características químicas e morfológicas que a diferenciam.

“Essas características proporcionam um produto de sabor diferenciado que hoje já possui maior valor de mercado, quando comparado à erva-mate produzida a pleno sol”, define Denilson Dortzbach, pesquisador do Centro de Informações de Recursos Ambientais e de Hidrologia de Santa Catarina (Epagri/Ciram). “Essa diferença é observada tanto no sabor, como na composição química e na morfologia das folhas”, explica.

Luiz Cláudio Fossati, engenheiro florestal e professor da Universidade do Contestado, conta que a colheita da erva nativa é feita em intervalos mais longos do que a não nativa. Segundo ele, na região do Planalto Norte catarinense uma colheita não se dá em menos de dois anos. Na não nativa, esse intervalo é de um ano ou menos. A época da colheita, que na região é concentrada no inverno, é outro diferencial.

Tudo isso, aliado a outras especificidades, confere um sabor especial à erva do Planalto Norte catarinense. Ela é mais doce e suave que as não nativas, e agrada o paladar de brasileiros, uruguaios e outros estrangeiros.

História

Mas os diferenciais da erva-mate do Planalto Norte vão muito além da frieza das constatações físicas e químicas. A população local mantém uma estreita relação com o produto, que ajudou a compor o mosaico cultural e histórico da região onde a atividade comercial da erva-mate ocorre há pelo menos 150 anos.

De uso indígena, o hábito de tomar o chimarrão se popularizou entre os colonizadores europeus no início do século XVI. Por volta de 1745 teve início o ciclo do gado e a consequente formação do caminho das tropas, que fazia a ligação entre o Rio Grande do Sul e São Paulo. Nas longas caminhadas, o gado e os tropeiros precisavam de locais para descansar. Surgiram assim os primeiros entrepostos de comércio, fixando os primeiros colonizadores do Planalto Norte catarinense.

Chimarrão é presença garantida na roda de conversa de muitos habitantes do Sul do Brasil
(Foto: Aires Mariga/Epagri)

Em meados do século XIX o processo de ocupação e colonização regional ganhou impulso, sempre em torno da exploração da erva-mate nativa. Assim, a região guarda uma relação muito estreita com a atividade, já que a erva-mate é o elemento central na formação deste espaço.

Devido à crescente demanda no mercado externo, a erva tornou-se um dos principais produtos de exportação do Brasil. Foi a partir da exploração dela que teve início o primeiro ciclo econômico da região do Contestado, em 1860.

Em 1865 aconteceu a construção da estrada Dona Francisca, outro ponto importante no crescimento regional. Foi por aí que desceu a primeira carga de erva-mate até o Porto de São Francisco do Sul. Antes da instalação de ferrovias na região, a erva-mate era transportada no lombo das tropas de mulas, por carroças, ou então por navegação fluvial pelos rios Negro e Iguaçu.

Wilson Seleme, dono da ervateira mais antiga de Canoinhas – que completa um século de existência esse ano – destaca a importância da erva-mate para o desenvolvimento do porto de São Francisco do Sul, no Norte Catarinense. Ele conta que, como a erva era exportada em barricas ou bolsas de aniagem de 40 ou 50 quilos, fazia muito volume, o que forçou a ampliação dos depósitos para armazenagem dos estoques, de onde a erva era transportada para Buenos Aires.

“Por volta de 1900 os conflitos na região se acirraram, muito em função da riqueza produzida pela erva-mate”, relata Gilberto Neppel, extensionista da Epagri em Canoinhas. Ele lembra que a multinacional Lamber já tinha interesse nos pinheiros e imbuias locais, “mas a erva-mate tinha sim papel importante na disputa pelo território”, destaca. Foi então que começou a Guerra do Contestado, travada entre Santa Catarina e Paraná nos anos de 1912 a 1916.

Floresta de araucárias predomina no território de abrangência da IG (Foto: Denilson Dortzbach/Epagri)

Com o fim da Guerra do Contestado e da disputa de limites territoriais, o Planalto Norte catarinense conquistou a identidade que se mantêm até hoje. Naquela época, os moradores tinham na erva-mate o principal produto gerador de renda na propriedade rural.

A riqueza natural na região era tanta que em 1923 a cidade de Canoinhas passou a se chamar Ouro Verde. Foi neste período que o governo catarinense criou o Instituto Estadual do Mate, para supervisionar e fiscalizar as atividades ervateiras e fixar cotas de produção e preços.

Tudo isso teve influência na diversidade cultural, social e econômica da região e um significado importante na exploração da erva-mate.

Indicação

Na região, 82% dos estabelecimentos agropecuários são de agricultura familiar. Essas propriedades possuem 93% da produção ervateira nativa e contribuem com 60% do que é produzido no Estado. Há cerca de uma década os ervateiros do Planalto Norte catarinense aspiram por uma Indicação Geográfica que dê destaque ao produto local por suas características singulares.

“A erva-mate na nossa região é conhecida como saudável, natural, da mata nativa, sombreada. Ela nasce naturalmente, não precisa usar adubação, nem produtos orgânicos, nem defensivos, nada disso. Nós já sabemos disso, mas queremos que o mundo conheça esse poder maravilhoso da erva da nossa região”, justifica Juliane Seleme, presidente do Sindicato da Indústria do Mate no Estado de Santa Catarina (Sindimate).

Rubens Bahr, da Cooperativa de Produtores de Mate de Campo Alegre, compartilha da mesma opinião. “Acho que a IG vem para diferenciar, ela é um marco para buscar a valorização do nosso produto e certificar o que a gente já sabe, que tem uma excelente qualidade”, descreve.

Luiz Mário Dranka, empresário do setor, lembra que a Indicação Geográfica não vem só para promover ganhos econômicos. “Não é só valor comercial que queremos agregar à erva-mate”, declara, referindo-se também ao valor histórico que a cultura agrícola tem para a região. “Entendemos que vai dar garantia de continuidade da cadeia produtiva por muitos e muitos anos”, sentencia.

A preservação dessa bagagem histórica e cultural também é uma preocupação dos agricultores familiares. “A nossa (erva-mate) é a melhor do mundo e não tem uma destruição da natureza. Então, temos que aproveitar, maximizar a produtividade do que ela proporciona para nós e viver assim, com ela, de geração a geração”, descreve com esperança o produtor rural Rodrigo Mendes de Souza.

Erva-mate nativa gera renda para mais de quatro mil famílias da região (Foto: Aires Mariga/Epagri)

Com base nestas expectativas, todos (Epagri, Mapa e as outras instituições envolvidas no processo) estão empenhados em conquistar o selo. Isso porque, uma Indicação Geográfica tem o poder de garantir a imagem autêntica de um produto. Ao mesmo tempo que funciona como ferramenta de reconhecimento internacional, ela facilita a presença no mercado por meio de uma ação coletiva e estimula a melhoria da qualidade de todo o processo produtivo. Entre os diversos outros benefícios promovidos, a certificação ainda permite que o consumidor identifique um determinado produto como específico de uma região

São mais de quatro mil famílias da região gerando renda em suas propriedades rurais com a erva-mate nativa. Esse público será o principal beneficiado por todas as vantagens oferecidas pela concessão da IG. Existem ainda no Planalto Norte catarinense mais de 20 empresas com marcas próprias, que produzem diversos tipos de produtos a partir da planta, destinados para o consumo interno e à exportação. Esses empreendimentos também seriam alcançados pelas vantagens da certificação, uma vez que ela poderia ser usada também em itens derivados da erva nativa, como bebidas e alimentos.

A área de abrangência da IG do Planalto Norte Erva-mate é de 12.024,81km2, o que corresponde a 12,6% do território catarinense. Compreende 20 municípios, mas alguns deles não têm todo o seu perímetro abrangido pela IG. Dentre as alternativas agrícolas, a erva-mate ainda é a principal atividade econômica, geradora de renda para a maioria dos municípios da região.

Um estudo realizado pela Epagri/Ciram determinou as características ambientais que são comuns ao território compreendido pela IG. É uma região com clima Cfb (temperado), com ocorrência de chuvas regulares, distribuídas ao longo do ano, que resulta em médias de precipitação pluviométrica que varia de 1.500 a 2.000mm. As temperaturas médias anuais variam de 15°C a 18°C. As geadas são frequentes ou pouco frequentes. A região tem os menores índices de insolação do Estado.

Forma de cultivo, à sombra de outras árvores, confere características únicas à erva nativa (Foto: Aires Mariga/Epagri)

A floresta de araucárias é predominante no território, e a maior parte da altitude está entre 700 a 1.100 metros. A geologia é caracterizada pela predominância de rochas sedimentares, com relevo suave ondulado a ondulado. No uso do solo destacam-se floresta, silvicultura (reflorestamento), fumo, soja, milho e pastagens. A área é composta principalmente por rios que têm a drenagem no Rio Iguaçu. Historicamente, o território começou a se formar a partir da Guerra do Contestado, com a assinatura do acordo de limites entre Paraná e Santa Catarina em 1916.

Todas essas informações técnicas, levantamento histórico e cultural, e outros estudos realizados ao longo dos últimos anos serão reunidos num dossiê, que será enviado pela Aspromate ao INPI, ainda neste ano. Caberá ao instituto avaliar o pedido e decidir pela concessão ou não da IG.

Ricardo Bernardes, representante do Mapa para IGs em Santa Catarina, tem boas perspectivas para o futuro da IG da erva-mate do Planalto Norte catarinense. Ele espera que o pedido tramite rapidamente no INPI, a exemplo do que aconteceu com a IG da erva-mate de São Mateus, no Paraná. Isso porque o produto tem uma profunda e bem documentada relação com a história e a cultura da região. “É uma cadeia produtiva promissora, que tem enorme potencial para ter a indicação, pois é um produto que tem história, reputação e atributos físicos singulares e diferenciados”, analisa.

Qualidade, tradição, tecnologia e sustentabilidade. Quando essas questões estão presentes num mesmo território, a Indicação Geográfica é o caminho para fortalecer a atividade, garantir a diferenciação do produto e abrir mercados mais exigentes, que valorizam a produção local e a sustentabilidade do território.

Por Gisele Dias, (giseledias@epagri.sc.gov.br) com colaboração de Eonir Malgaresi (eonir@epagri.sc.gov.br).

(Publicado em Vol. 31, nº1, jan./abr. 2018)

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