De olho no mar

Foto: Matias Boll/Epagri

A Epagri instalou, em menos de dez anos, a maior rede estadual de monitoramento do nível do mar do Brasil, que fornece informações indispensáveis para atividades náuticas

O litoral é de suma importância para Santa Catarina. Quase 40% dos catarinenses moram na região litorânea, que ocupa apenas 10% do território do Estado. A zona costeira concentra cinco dos dez municípios mais populosos de Santa Catarina. Os 38 municípios localizados no litoral respondem por 39% do Produto Interno Bruto (PIB) do Estado. Atividades portuárias, pesca e turismo contribuem para essa força econômica.

Santa Catarina é destaque nacional na pesca extrativa e desembarca, em média, 25% do total de pescado marinho capturado anualmente no Brasil. Nada menos que 40 mil catarinenses estão diretamente ligados à atividade. O turismo é outra importante fonte de renda da zona costeira, que recebe, a cada temporada de verão, cerca de 3 milhões de visitantes.

Dois dos dez maiores portos do Brasil estão em Santa Catarina, nas cidades de Itajaí e São Francisco do Sul. Os portos de Itapoá, Navegantes e Imbituba também são indispensáveis para a economia catarinense. Produtos agropecuários como soja, milho, carne de aves e de suínos estão entre os principais itens exportados nessas unidades.

A Epagri está atenta à relevância desses números. Por isso implantou, em menos de dez anos, a maior e melhor rede de monitoramento costeiro do Brasil. São dez equipamentos instalados ao longo de toda a linha litorânea, que fornecem informações fundamentais para as atividades desenvolvidas no mar. O serviço é uma reponsabilidade do Centro de Informações de Recursos Ambientais e de Hidrometeorologia de SC (Epagri/Ciram), que já gerencia a maior rede de monitoramento ambiental do Brasil, à qual as estações maregráficas se somam.

Tudo começou em 2012, com a instalação do primeiro marégrafo, na Caieira da Barra do Sul, no extremo sul da ilha de Florianópolis. O equipamento, que mede a variação do nível do mar de uma determinada região, foi instalado para apoiar uma pesquisa científica iniciada na época pela equipe da Epagri.

A partir daí, o monitoramento costeiro não parou de crescer. Em 2014 foram instaladas estações maregráficas em Itapoá, Laguna e Porto de São Francisco do Sul. No ano seguinte foi a vez de Balneário Camboriú, Imbituba e Balneário Rincão ganharem seus equipamentos. Em 2017 os extremos do litoral catarinense se beneficiaram do projeto, com a instalação de marégrafos na Ilha da Paz, ao Norte do Estado, e em Passo de Tores, último município do litoral Sul de Santa Catarina. Em 2018, um equipamento que já existia em Barra Velha foi readequado para passar a integrar a rede de monitoramento costeiro.

Equipamentos expostos à corrosão do mar demandam manutenção mais efetiva Foto: Matias Boll/Epagri

Caro e difícil

“O monitoramento de mar é mais caro e difícil de fazer”, explica Matias Boll, pesquisador do setor de Oceanografia e Monitoramento Costeiro da Epagri/Ciram. Ele conta que o ambiente mais agressivo, o alto valor dos equipamentos e o custo elevado da manutenção são empecilhos para que redes dessa natureza se espalhem pelo litoral brasileiro. “A manutenção tem que ser mais efetiva, porque os equipamentos estão expostos à corrosão e podem até afundar. A logística para chegar até os pontos de monitoramento pode ser mais complicada também”, relata Matias, ressaltando que a instituição se empenha em fazer manutenção preventiva na rede catarinense.

No momento, as estações maregráficas da Epagri/Ciram reúnem sensores que medem maré, precipitação e a temperatura da água. Além disso, os equipamentos contam com uma caixa com bateria, datalogger, transmissor, regulador de voltagem e placa solar fotovoltaica. Essa última permite a instalação das estações em locais isolados e sem energia elétrica.

As variáveis são medidas em intervalos de cinco minutos e enviadas a cada 15 minutos para o banco de dados da Epagri/Ciram, em Florianópolis. Lá a qualidade dos dados é testada e, caso não sejam identificados erros, as informações são publicadas a cada hora no link Litoral On-line, do site da Epagri/Ciram (ciram.epagri.sc.gov.br). Das 80 mil leituras horárias do nível do mar realizadas em 2017, a rede apresentou eficiência de 98,9%. Tudo é feito de forma automática, sem a interferência humana.

Das dez estações maregráficas da rede da Epagri/Ciram, sete medem o nível do mar (ou seja, a variação da maré) com sensor do tipo radar. “Trata-se de um equipamento mais moderno e preciso, importado da Alemanha. Cada um custa cerca de R$20 mil”, explica Luis Hamilton Pospissil Garbossa, outro dos pesquisadores da Epagri/Ciram responsáveis pelo monitoramento costeiro.

Ele detalha que esse sensor, que fica acima do mar, emite uma onda eletromagnética que bate na superfície da água e retorna ao aparelho, onde são feitos os cálculos necessários para medir o nível. Como está fora da água, esse sensor dá menos problema e, no caso de ser necessária uma manutenção, o acesso a ele é bem mais simples. Nos outros três marégrafos da rede, os sensores de nível são de pressão, ou seja, estão instaladas dentro da água.

O correntômetro instalado na Baía da Babitonga, em São Francisco, é umas das “estrelas” do monitoramento costeiro da Epagri/Ciram. A tecnologia foi importada dos Estados Unidos a um custo de R$100 mil, bancado pela Financiadora de Estudos e Projetos (Finep). Mede a correnteza a uma profundidade de cinco metros e fornece informações fundamentais para navegação, especialmente de grandes embarcações. A Epagri/Ciram tem planos de instalar também no litoral catarinense um corretômetro ADCP, que fica no fundo do mar e mede a força da corrente em toda a coluna de água, do fundo até a superfície do mar.

Porto de São Francisco do Sul é um dos que mantêm contrato de serviço com a Epagri/Ciram (Foto: Matias Boll/Epagri)

Portos

A Epagri/Ciram mantém contrato de serviço com dois portos catarinenses: São Francisco do Sul e Imbituba. Os portos têm exigências muito altas de monitoramento ambiental e de segurança e o serviço realizado pela Epagri atende a essas necessidades com custo competitivo. “A maré é muito importante para que eles possam controlar o tráfego dos navios, escolher o momento certo para atracar, para entrar na baía, entre outras decisões”, esclarece Carlos Eduardo Salles de Araújo, oceanógrafo e pesquisador da Epagri/Ciram envolvido no serviço de monitoramento costeiro.

Informações como as geradas pelo monitoramento da Epagri serão cada vez mais decisivas na operação portuária. “Com a crise do petróleo, as embarcações tendem a ser cada vez maiores, em busca da economia de escala e da redução do custo unitário do frete”, avalia Matias. Para exemplificar, ele usa o Canal do Panamá, que numa reforma em 2016 passou a permitir a passagem de navios com até 14 mil contêineres. Antes, a capacidade era de 6 mil.

Navios maiores demandam canais e portos de atracagem com calados maiores. O monitoramento constante da maré é parte central nesse processo. O conhecimento detalhado dos picos de alta e baixa de maré, bem como dos períodos de estofo (baixa circulação das correntes de maré), define a programação das manobras de aproximação, atracagem e partida nos portos em todo o mundo. A maioria dos portos de Santa Catarina ainda depende das tábuas de maré, que apresentam uma previsão calculada pela Marinha do Brasil há mais de 50 anos. Medir e divulgar em tempo real a maré nesses locais significa mais precisão nas operações e menores custos para os portos.

Banhistas e usuários das praias podem saber a temperatura da água em tempo real (Foto: Aires Mariga/Epagri)

Temperatura

A mais recente inovação da rede de monitoramento costeiro da Epagri/Ciram é a medição da temperatura da água nas praias de Santa Catarina. No fim de 2018, a rede passou a medir essa variável em seis pontos da costa: Porto de Itapoá; praia de Laranjeiras, em Balneário Camboriú; Caieira da Barra do Sul, em Florianópolis; Porto de Imbituba; Porto de Laguna e barra do rio Mampituba, em Passo de Torres.

A temperatura do mar varia muito no litoral de Santa Catarina. É que o Estado está numa zona de transição, com influência de correntes marinhas tropicais e subtropicais. Assim, recebe uma corrente mais fria ao Sul, vinda da região polar (ramo costeiro da corrente das Malvinas). Já o litoral Norte é influenciado por correntes marinhas mais quentes. No dia 14 de novembro de 2018, por exemplo, o Litoral On-line exibia ao mesmo tempo temperaturas da água de 26,59°C em Balneário Camboriú e de 19,45°C em Imbituba.

A medição da temperatura da água é feita a cada hora e publicada em tempo real no Litoral On-line, juntamente com as outras variáveis observadas. Em alguns pontos ela é realizada por termômetro e em outros por satélite. “Essa medição é de grande interesse para pescadores, banhistas, maricultores, surfistas e usuários das praias em geral”, avalia Argeu Vanz, pesquisador da equipe de oceanografia e monitoramento costeiro da Epagri/Ciram.

Os equipamentos do monitoramento costeiro apoiam também a previsão para o mar, feita pela equipe de meteorologistas da Epagri/Ciram. Esse serviço fornece diariamente informações fundamentais para a segurança da navegação entre Laguna, que fica no litoral Sul de Santa Catarina, e Paranaguá, no Paraná.

Essa previsão gera o Aviso para o Mar, que é emitido sempre que as condições de navegação se asseveram e podem gerar risco para embarcações de diversos portes. Os avisos são publicados no site da Epagri/Ciram, distribuídos por e-mail, redes sociais e também por grupos de WhatsApp. Qualquer pessoa que tenha um celular com WhatsApp pode receber esses avisos; basta salvar o número (48) 98802-3785 e enviar uma mensagem pedindo para ser incluído na lista.

Gisele Dias – giseledias@epagri.sc.gov.br

(Publicado em Vol. 32, nº1, jan./abr. 2019)