Passicultura catarinense se moderniza para continuar produtiva e rentável

Foto: Aires Mariga/Epagri

A cultura do maracujazeiro, também conhecida por passicultura, é uma das cadeias produtivas mais importantes do extremo sul de Santa Catarina, principalmente pela produção de maracujá-azedo (Passiflora edulis). Em 2017, o cultivo do maracujazeiro-azedo gerou o quarto maior valor bruto da produção (VBP) agrícola na microrregião de Araranguá, atrás do arroz, fumo e banana, que ficou entre as cinco regiões de maior produção de maracujá-azedo no Brasil (IBGE – PAM). Santa Catarina foi o terceiro maior produtor do fruto no país, atrás somente da Bahia e do Ceará em 2017. Entre os dez municípios com maior produção no Brasil estiveram presentes São João do Sul e Sombrio, sendo estes os únicos abaixo da linha do Trópico de Capricórnio a figurar entre os mais expressivos produtores. Para a
fruticultura catarinense, o VBP das últimas safras nos pomares de maracujá azedo tem sido semelhante às culturas tradicionais, como a videira e as frutas de caroço, ocupando em 2016 o terceiro
lugar entre as frutíferas de Santa Catarina, ficando atrás somente da produção de maçã e banana, respectivamente.

Esses resultados não foram obtidos por acaso. Vêm de um esforço conjunto, qque começou em meados da década de 1990, quando alguns agricultores de Jacinto Machado e Sombrio trouxeram essa cultura como novidade para a região. A introdução pela Epagri –  Estação Experimental de Urussanga, de diversas seleções obtidas no Ceagesp e em outros Ceasas do sudeste do Brasil, em 1995, e cultivadas em diversos locais da Região Sul por alguns anos, resultou em uma seleção altamente adaptada às condições edafoclimáticas do Sul Catarinense, registrada e batizada em 2015, como ‘SCS437 Catarina’, com participação de pesquisadores e extensionistas da Epagri, bem como de Passicultura catarinense se moderniza para continuar produtiva e rentável produtores da região.

Com a adaptação dessa cultura de clima tropical às condições da região, o maracujazeiro-azedo ‘Catarina’ rapidamente caiu nas graças dos agricultores, que o viram como uma forma de diversificar suas propriedades, principalmente por ser uma alternativa à fumicultura e apresentar boa rentabilidade às pequenas propriedades rurais. Mesmo com os lançamentos de cultivares híbridos pela Embrapa
e Instituto Agronômico de Campinas (IAC), o maracujá-azedo ‘Catarina’ continuou sendo o mais cultivado no nosso Estado devido à produtividade, adaptação e seus frutos de alta qualidade, reconhecidos no mercado nacional como os melhores do Brasil.

O maracujá-azedo, também conhecido como fruta-da-paixão, deixou os agricultores catarinenses apaixonados e essa paixão já completou bodas de prata. O Sul Catarinense é uma das regiões mais longevas do Brasil na produção do fruto, com aproximadamente 25 anos. Em outros Estados e regiões, os ciclos dessa cultura são de sete a 10 anos, devido à alta incidência de doenças associada à inexperiência dos agricultores, levando à decadência e substituição dessas áreas por outras culturas. Essa longevidade ocorreu pelo poder de adaptação dos agricultores à realidade do mercado e sua capacidade de lidar com doenças ao longo desse percurso.

No início dos anos 2000, com a entrada na região da mancha-bacteriana (Xanthomonas axonopodis pv. passiflorae) pela introdução de mudas contaminadas, a grande área cultivada à época com aproximadamente mil hectares só no município de Jacinto Machado, o excesso de frutas no mercado nacional e as fortes geadas daquele ano causaram uma grande redução da área cultivada, chegando
a 50ha após a passagem do furacão Catarina.

Após esse período, houve uma recuperação lenta da área cultivada, estimulada pela forte diminuição em outros Estados, como São Paulo, que sofreram com a entrada da virose do endurecimento dos frutos do maracujazeiro (VEFM), causada pelo vírus Cowpea aphid-borne mosaic virus (CABMV) e transmitida por pulgões (afídeos), ferramentas de poda e mudas contaminadas. Já em Araquari, município do litoral norte de Santa Catarina, capital estadual do maracujá, houve forte redução devido à entrada da VEFM em 2007.

Em 2016, com a chegada da VEFM no Sul Catarinense, as recomendações para o cultivo da fruteira mudaram radicalmente. Para conviver com a virose, foi necessário adaptar a produção de mudas ao ambiente protegido, em abrigos com telado antiafídeos, antecâmara e cobertura plástica, bem como aumentar o tamanho das mudas com a utilização de embalagens maiores que permitissem a antecipação da safra. Outra mudança necessária foi a adoção de um período de vazio sanitário sincronizado em toda a região. Neste caso, deixam-se as áreas sem plantas vivas e sintomáticas durante o mês de julho, para que haja a eliminação do inóculo da virose, garantindo que o pomar a ser instalado na safra seguinte não sofra com a influência da safra anterior, diminuindo a incidência da doença na região.

Mesmo antes da chegada da VEFM na região, diversas ações de extensão e da pesquisa foram realizadas a fim de conscientizar os agricultores das práticas de manejo da doença e suas consequências, tais como: dois seminários sul-brasileiros sobre maracujazeiro, em 2015 e 2017; VII Simpósio Brasileiro sobre a Cultura do Maracujazeiro, em 2017; dois encontros técnicos sobre maracujazeiro, em 2016 e 2018; curso estadual do maracujá, em 2018; e curso de produção de mudas em ambiente protegido, de 2016 a 2018. Além disso, foram realizados vários dias de campo e atividades para reconhecimento da
VEFM e conscientização das práticas de convivência com a doença. Tais ações contaram com o auxílio de especialistas de diversas instituições de todo Brasil e o grupo de trabalho do maracujazeiro de Santa Catarina colaborou ativamente na geração de um conjunto de indicações técnicas para enfrentar as viroses.

Com as indicações de manejo da VEFM geradas pela Epagri e demais instituições parceiras, tais como Cidasc, IAC, universidades e empresas privadas da região, incluindo a participação de agricultores líderes na cultura, o setor produtivo iniciou um movimento para modernizar os pomares de maracujazeiro-azedo da região. A iniciativa contou com a produção de mudas altas, maiores que 80cm, em ambiente
protegido, com telado antiafídeos; renovação anual dos pomares com vazio sanitário de pelo menos 30 dias entre as safras e a eliminação de plantas sintomáticas desde o plantio até o início do florescimento, adotando o ciclo anual para a cultura. A adoção dessas práticas foi vital para a redução dos efeitos da doença nos pomares da região, bem como para a manutenção da área produtiva. Além disso, a utilização de mudas avançadas permitiu a produção antecipada em muitos pomares, possibilitando a comercialização dos frutos em uma janela de produção de escassez no mercado nacional, gerando boa rentabilidade e maior rendimento aos produtores que aderiram às técnicas recomendadas.

A evolução do sistema de cultivo convencional para o plantio direto, que está sendo desenvolvido de forma participativa pelos passicultores catarinenses, tendo como base o sistema de plantio direto de hortaliças (SPDH), também traz a perspectiva de melhoria da qualidade dos frutos produzidos em Santa Catarina, com a efetiva promoção da saúde das plantas e, com isso, redução e até eliminação do uso de agrotóxicos pelos produtores catarinenses. A implantação da cultura com o mínimo revolvimento do solo, em áreas com quebra-ventos adequados, com cobertura verde o ano todo, eliminando o uso
de herbicidas, e a nutrição de acordo com a taxa de absorção de nutrientes pelo maracujazeiro-azedo devem proporcionar maior conforto às plantas e, por consequência, reduzir o custo de produção e da mão de obra necessária para a produção da cultura, além de tornar o trabalho mais humanizado e conectado com a natureza, aumentando os polinizadores e inimigos naturais nas áreas de cultivo.
Nos próximos anos espera-se a sincronização do vazio sanitário, com datas de erradicação e plantio dos pomares definidos, bem como o estabelecimento de um padrão mínimo de qualidade das mudas para  a efetivação da fiscalização e incentivo da adoção das práticas indicadas para a manutenção da cultura. Além disso, a produção em sistema de plantio direto deve aproximar cada vez mais os passicultores  apaixonados e os amantes dessa deliciosa fruta, pela produção de um maracujá mais amigável ao ambiente, à sociedade e de alta qualidade para o consumidor brasileiro.

Henrique Belmonte Petry¹ e Darlan Rodrigo Marchesi²

1 Engenheiro-agrônomo, Dr., Epagri/Estação Experimental de Urussanga, Rodovia SC 108, km 353, nº 1563. Bairro: Estação, Urussanga – SC. CEP: 88840-000, e-mail: henriquepetry@epagri.sc.gov.br.
2 Engenheiro-agrônomo, M. Sc., Epagri/Gerente estadual de extensão rural e pesqueira, Rodovia Admar Gonzaga, 1347. Bairro: Itacorubi, Florianópolis, SC. CEP 88034-901, e-mail: darlan@epagri.sc.gov.br.

(Publicado em Vol. 32, nº2, mai./ago. 2019)